A Ágora só é possível em uma internet livre. Mas, antes de destrincharmos tal afirmação, precisamos compreender primeiro o que é o agorismo. Em 1979, o filósofo libertário Samuel Edward Konkin III, em sua obra New Libertarian Manifesto (Manifesto do Novo Libertário), propôs uma corrente do libertarianismo que chamou de Novo Libertarianismo, cuja filosofia central é o agorismo. O termo agorismo deriva da palavra grega ágora, que significa "mercado". As ágoras eram os mercados livres da Grécia Antiga. O agorismo é uma filosofia radical que prega a contraeconomia como estratégia e incentiva o uso de práticas contraeconômicas. Em outras palavras, trata-se de uma filosofia que busca uma sociedade livre de coerção e vê, como estratégia para alcançá-la, a desassociação gradual dos indivíduos das estruturas coercitivas tradicionais. Konkin acreditava que, se um grupo considerável de pessoas retirasse seu tempo, apoio e dinheiro das estruturas corporativo-estatais, isso seria suficiente para minar o poder dessas instituições. Segundo ele, esse processo drenaria recursos suficientes para levar ao colapso do Estado. Uma vez alcançada a Ágora, os indivíduos desenvolveriam um sistema social que não seria mais baseado na coerção. O conjunto dessas práticas foi chamado por Konkin de contraeconomia, definida como a teoria e a prática de toda ação humana não aceita pelo Estado e que não envolva iniciativa de violência nem ameaça de violência. «"Um contraeconomista é: (1) qualquer pessoa que pratique um ato contraeconômico; (2) aquele que estuda tais atos. A contraeconomia é: (1) a prática; (2) o estudo dos atos contraeconômicos."» Em suma: «"A Contraeconomia é fazer o que quiser, quando quiser, por seus próprios bons motivos."» Konkin inicia seu magnum opus descrevendo o estatismo como a condição predominante da humanidade. As pessoas veem o Estado como a solução para todos os problemas da sociedade e acabam por idolatrá-lo. Ele descreve a evolução do pensamento humano desde a escravidão até o libertarianismo e afirma que o papel do Novo Libertário é identificar e expor as contradições desse sistema. A partir disso, Konkin apresenta os meios necessários para alcançarmos a Ágora. A fim de pintar um quadro claro da luta agorista por um mundo mais livre, ele explica os quatro estágios da transição do estatismo ao agorismo, bem como as diversas ações que um agorista consciente pode realizar para promover a propaganda agorista e a atividade contraeconômica. Konkin inicia pela Fase 0: Sociedade Agorista de Densidade Zero. Nessa fase, o pensamento agorista ainda não existia e o pensamento libertário encontrava-se disperso e desorganizado. Segundo ele, essa corresponde à maior parte da história da humanidade. Assim que os libertários tomam conhecimento da filosofia agorista e começam a praticar atividades contraeconômicas, inicia-se a Fase 1: Sociedade Agorista de Baixa Densidade. Nesta fase aparecem os primeiros libertários contraeconômicos. Konkin acreditava que este era um momento perigoso, pois muitos ativistas seriam tentados por esquemas de "obter liberdade rapidamente". Ele também adverte os agoristas para que não se deixem seduzir por campanhas políticas, afirmando que todas fracassarão, pois a liberdade cresce indivíduo por indivíduo; uma conversão em massa é impossível. À medida que avançamos para a Fase 2: Sociedade Agorista de Pequena Condensação e Densidade Média, os estatistas passam a notar o crescimento do agorismo. É nessa etapa que a contraeconomia se expande, e os agoristas começam a formar uma sub-sociedade cada vez maior inserida na sociedade estatista. Embora boa parte deles ainda viva sob o estatismo, já é possível perceber um aumento significativo do grau de agorismo entre os indivíduos. Isso nos conduz à Fase 3: Sociedade Agorista de Grande Condensação e Alta Densidade, momento em que o Estado entra em uma crise terminal devido ao esgotamento de seus recursos e à corrosão de sua autoridade causada pelo crescimento da contraeconomia. À medida que a influência da Ágora cresce, o domínio estatal diminui em razão de suas próprias práticas econômicas insustentáveis. Konkin alerta novamente que os estatistas tentarão conquistar novos libertários por meio de "anti-princípios" e apelos para abandonar a vigilância e a pureza de pensamento. Nesse estágio, libertários altamente motivados passam a desenvolver as primeiras agências agoristas de proteção e arbitragem, que competirão com o Estado. Nesse ponto, o governo passa a existir apenas em bolsões territoriais isolados. Aqueles que ainda vivem sob o estatismo tornam-se plenamente conscientes da liberdade desfrutada pelas comunidades agoristas. O Estado enfraquece a tal ponto que grandes associações de agências privadas de proteção conseguem conter sua violência e defender os novos libertários. Para Konkin, esta é a última etapa antes da conquista de uma sociedade libertária. A transição da Fase 3 para a Fase 4 marca o último surto de violência da classe dominante estatal. Segundo Konkin, assim que os intelectuais do Estado perceberem que sua autoridade deixou de ser respeitada, recorrerão ao ataque. A defesa contra essa ofensiva será possível porque a contraeconomia já terá produzido organizações de proteção suficientemente fortes para enfrentar os remanescentes do aparato estatal. Konkin afirma que o movimento agorista deve trabalhar para impedir que o Estado reconheça suas fraquezas antes que a sociedade tenha sido amplamente transformada. Quando as comunidades agoristas resistirem com sucesso ao ataque final do Estado, a revolução agorista estará completa. Ele observa que as três primeiras fases são, na verdade, divisões artificiais, pois a transição entre elas ocorre gradualmente. Já a passagem da terceira para a quarta fase seria bastante repentina. Na Fase 4: Sociedade Agorista com Impurezas Estatistas, o Estado perde definitivamente sua capacidade de impor sua vontade, e a contraeconomia torna-se o mercado verdadeiramente livre, onde as trocas ocorrem sem coerção. Konkin prevê que a divisão do trabalho e o autorrespeito de cada trabalhador, capitalista e empreendedor eliminarão gradualmente a organização empresarial tradicional, especialmente a hierarquia corporativa, que ele considerava uma imitação do Estado, e não do mercado. Ele imagina empresas formadas por associações voluntárias de contratantes independentes, consultores e empreendedores. Após a neutralização dos últimos remanescentes do Estado, a liberdade torna-se o fundamento da vida cotidiana, e a humanidade passa, finalmente, a enfrentar apenas os desafios naturais da própria existência. Dito tudo isso, acredito fortemente que os meios tecnológicos e informacionais serão uma grande ferramenta que culminará na Ágora. No entanto, os meios tecnológicos e informacionais que dominam a web moderna não são nada livres e não contribuem para o descentralismo da informação. Usamos como exemplo a plataforma do Mercado Livre, mas de livre ela não tem nada. É uma plataforma centralizada, passível de regulação governamental, organizada por algoritmos opacos. Ela não representa um comércio livre e descentralizado, em que a única soberania e autoridade emergem do próprio indivíduo e da comunidade. As redes sociais, onde passamos a maior parte do nosso tempo online, também sofrem desse mesmo mal. São gigantes plataformas coordenadas por grandes empresas, que sofrem interferência estatal e onde a informação não pode ser verdadeiramente livre. Peguemos também como exemplo o Pix, a maior ferramenta de pagamentos rápidos e 100% online do Brasil. É uma ferramenta criada, regulada e controlada pelo Estado. As plataformas digitais que possibilitam o comércio não são livres. As redes sociais, que possibilitam e facilitam, pelo menos em tese, a disseminação do agorismo e da contraeconomia, também não são livres. Muito menos os meios de pagamento digitais, que são criados pelo próprio Estado. Se a web não é livre, onde entraria a afirmação do começo deste texto? O fato de a internet ser tomada por esse corporativismo estatal não invalida que tecnologias descentralizadas e de software livre possam surgir; elas apenas são mais underground. O futuro do agorismo está no Bitcoin e no Nostr. Suponhamos que novos libertários e agoristas conscientes se apropriem de protocolos descentralizados como o Bitcoin e o Nostr para disseminar a contraeconomia e praticá-la. Comunidades no Nostr destinadas à disseminação das ideias agoristas e ao compartilhamento de informações sobre sonegação de impostos, construção de armas em 3D etc.; negociação de produtos proibidos pelo Estado utilizando o Bitcoin como moeda e o Nostr como mercado. Imagine só: diversas comunidades sobre o assunto e diversos clientes de mercados P2P criados sobre o protocolo. Isso definitivamente é o futuro.

Replies (7)

novo's avatar
novo z 1 month ago
Só estou zuando com o termo Novo Libertário que há logo no começo do texto 👍
mas você é libertário sim, é um @novo libertário. inclusive essa piada foi muito jovial da sua parte. uma pena eu ser literal demais para compreender de primeira
Recentemente eu fui tentar vender um celular que não usava mais no Mercado Livre porém a plataforma estava bloqueando meu anúncio sob a alegação que o modelo do celular não era homologado pela Anatel, tentei contatar o suporte pra resolver a situação mas sem sucesso. Então como alternativa anunciei na OLX sem os problemas com a burocracia e as regras de conformidade estatal que tive no ML; em menos de 24h consegui vender o aparelho. Em suma, agorismo e contra-economia é mais ou menos essa experiência que tive com a venda do celular, se uma plataforma não funciona bem para o usuário devido à interferência estatal então migramos para outra menos regulada