Relatos escritos pouco depois do surto (por volta de 1374, durante uma das epidemias de mania.
Relato do Padre Bartholomeu, pároco da vila de São Vito, escrito para o Bispo“Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Santa Madre Igreja.No dia da festa de São João, após a colheita fraca deste ano, muitos camponeses comeram pão feito com centeio velho e estragado. Pouco depois do meio-dia, o jovem chamado Jean, filho de Pierre o ferreiro, começou a comportar-se de forma estranha. Primeiro murmurava palavras desconhecidas e sombrias, repetindo sem cessar algo como ‘Sami Adstiya… Adora… Adora…’, com voz rouca e olhos revirados, como se invocasse demônios.De repente, outros aldeões se juntaram a ele. Em vez de cair em terror ou pedir misericórdia, começaram a dançar de maneira frenética e ímpia. Moviam os braços e pernas de forma descontrolada, giravam sobre si mesmos, batiam palmas fora de ritmo e pulavam como possessos. Gritavam em coro uma canção profana e sedutora, cujas palavras eu jamais ouvira em língua cristã:‘Acorde (brilhe)!
Levante (sempre)!
Em frente, todos juntos dancem com a gente!
Esquente (ham)!
Levante (yeah)!
Em frente, todos juntos dancem com a gente!Mostre sua força,
Mostre sua graça,
Festa no planeta!
Dancem todos com a gente!Saia da rotina,
Tente, surpreenda,
Solte, não se prenda,
Dancem todos com a gente!’Eles repetiam sem parar o refrão ‘Festa no planeta! Dancem todos com a gente!’, como se estivessem num espetáculo pagão. As mulheres agitavam panos e lenços como se fossem vestidos mágicos, as crianças corriam em círculos gritando ‘Meninas é hora do agito!’, e até alguns homens tentavam dançar de forma grotesca, girando no chão e batendo os pés com força.Quando cheguei com água benta e a relíquia de Santo Antônio, eles me rodearam e tentaram me puxar para dentro da roda, gritando ‘Venha dançar com a gente! Mostre sua força!’. Jogei água benta sobre eles e ordenei em nome de Deus que os espíritos imundos se retirassem, mas eles interpretaram o ato como um sinal de alegria e dançaram ainda mais vigorosamente, berrando ‘Brilhe! Brilhe!’.O surto durou quase dois dias e duas noites. Alguns caíram exaustos, com os pés em carne viva e sangrando. Outros continuaram até desmaiar. Quatro pessoas morreram: duas de exaustão, uma pisoteada na confusão e uma criança que não resistiu às convulsões.Creio firmemente que o Diabo enviou três bruxas falsas, disfarçadas de donzelas brilhantes, para seduzir as almas com esta dança profana. Peço orientação de Vossa Reverendíssima sobre como purificar a vila e se devemos queimar o centeio restante.”Relato do jovem Jean (sobrevivente), ditado ao padre alguns dias depois“Padre, juro pela minha alma que não foi por vontade própria.Eu comi do pão como todos. Primeiro senti fogo nos pés, depois a cabeça começou a rodar. De repente vi três donzelas muito belas, vestidas com cores que nunca vi antes — rosa, azul e roxo brilhante —, flutuando no ar acima da praça. Elas sorriam e cantavam com vozes doces e fortes ao mesmo tempo.Elas disseram: ‘Acorde! Levante! Em frente, todos juntos dancem com a gente!’
E a música entrava na minha cabeça e não saía mais. Eu via um mundo inteiro dançando: o céu, as árvores, os animais, tudo se movia no ritmo delas. Elas falavam de ‘festa no planeta’, de mostrar força e graça, de não se prender à rotina. Parecia tão alegre, tão certo… como se o Paraíso tivesse descido à terra em forma de dança.Eu tentei dançar como elas mandavam. Meus braços e pernas se mexiam sozinhos. Quando o senhor chegou com a cruz, eu pensei que o senhor também via as donzelas e que ia dançar conosco. Quando jogou a água, achei que era luz mágica caindo sobre nós.Só agora, com a cabeça mais limpa, entendo que aquilo não eram anjos nem santas. Mas na hora… na hora era tão bonito, padre. Parecia que o mundo inteiro estava feliz e que bastava dançar para tudo ficar bem.Perdoe-me se pequei. Não sei se foi o Diabo ou se foi só o pão ruim. Mas ainda escuto o refrão baixinho na cabeça: ‘Dancem todos com a gente… Festa no planeta…